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quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Estou à beira de uma internação psiquiátrica

Imagem do filme "Camisa de Força" de 2005.


Não conversei mais com minha vizinha. Aquela que disse com lascívia entre os lábios que eu parecia um nazista. Durante a semana tivemos somente aqueles encontros casuais de entra e sai do condomínio.

Só.

O que notei, no entanto, e posso estar à beira de uma internação psiquiátrica, é que ela continua rindo do mesmo jeito provocante, de quando me acusou de ser um discípulo de Hitler, fazendo-me crer, que nas entrelinhas daquele olhar e daquela boca se contorcendo delicadamente para sorrir, estava uma mulher querendo repetir aquilo e mais um pouco, entre quatro paredes, trajada tão somente, de calcinha, sutiã, cinta-liga e, claro, salto alto.

Desse jeito, sem tirar nem por.

Como se falasse, miasse, sussurrasse, implorasse, sem palavra nenhuma, só um sorriso e, se muito, um aceno bobo com os dedinhos da mão direita riscando o ar:

- Oiiiii vizinhooo, tudo bem com vocêêê?

Malicioso. Sensual. Sujo. Selvagem.

Sim, selvagem.

Repito: posso estar à beira de uma internação psiquiátrica, mas, certo e crente que aquele riso é sim senhor (senhoras e senhoritas, também), selvagem.

A propósito, já disse que a vizinha ouve Frejat se lambuzando com café com leite e até comentou que tinha me visto ouvir o ex-Barão Vermelho também. Citou até nome de música.

Pois é.

Num desses entra e sai do condomínio, esparramado no meu sofá eis que ela me fuzila com aquele sorriso provocante do terceiro paragrafo e quase estaciona o carro na frente da minha janela. Querem saber por quê? Heim, heim?

Só e única e exclusivamente para que eu ouvisse que ela estava ouvindo Frejat. E mais: a mesma música que ela citou daquela outra vez: nazista, lascívia, sutiã, calcinha, cinta-liga. A mesma.

Tchê, pela terceira vez: internem-me numa clínica psiquiátrica se estiver louco.

Não estou. Não mesmo. Só quero entender, embora saiba que não vou conseguir, nem que faça um esforço transcendental e passe uns dias meditando com a bunda grudada no asfalto quente da BR 020. Aliás, não sei se há o que entender ou necessidade de se entender o que se passa pela cabeça de uma mulher que ri do modo como minha vizinha ri.

Também não sei se é possível acreditar que depois de hoje, aquela guria de olhos felinos tão encantadores vai me achar um cara normal. Talvez esteja na hora de escrever uma crônica só pra ela e seguir o conselho da minha confidente:

- Toda mulher quer uma crônica pra chamar de sua.

Que barbaridade.

A vizinha que tem namorado tem duas e a guria de olhos felinos, no máximo, um paragrafinho. Estou fazendo tudo errado. Tudo.

Chame a ambulância. Acho que mereço ser internado de camisa de força e tudo mais.

***

Texto originalmente publicado no blog da IMMAGINE.


terça-feira, 2 de setembro de 2014

Morgan Freeman não merecia aquele final

Lucy é um fóssil de Australopithecus afarensis de 3,2 milhões de anos, descoberto em 1974 pelo professor Donald Johanson

Os 10% da capacidade cerebral que uso deve ser insuficiente para entender o que se passou na cabeça do autor de Lucy, longa metragem estrelado por Scarlett Johansson, em cartaz nos cinemas de todo país.

Depois de um começo animador e intrigante a maionese desanda do meio para o final a ponto deu ficar me perguntando o que um cidadão como Morgan Freeman estar fazendo ali, em meio a tanta bobagem.

Sim, ou estou incapaz de compreender a mensagem do filme ou usar 100% da nossa capacidade cerebral resume-se a se transformar numa parafernália escura gigante até o grand finale quando tudo que resta é um pendrive com toda informação armazenada.

Okay, isso pode ser encarado como um spoiler, mas, não creio que seja suficiente para desabonar a chance que deve ser dada ao filme. Assista sem compromisso.

Ponto.

Mais: desligue o cérebro quando for assistir ao filme.

Um amigo me ensinou essa tática uma vez e algumas experiências cinematográficas passaram do patamar de absurdamente entediantes para “okay, poderia ser pior”. Essa serviu para constatar que Scarlett éScarlett e que só um rostinho bonito não é capaz de salvar um filme.


Pobre do Freeman, ele não merecia.